
-Eu te amo, Bella - murmurou ele
-Eu te amo, Jacob - sussurrei, com a voz entrecortada.
Ele sorriu.
-Sei disso melhor do que você. - Ele se virou para se afastar.
-Qualquer coisa. - Gritei numa voz estrangulada. - O que você quiser. Mas não faça isso!
Ele parou, virando-se devagar. -
Você não falou com sinceridade.
-Fique - implorei.
-Não, eu vou. - Ele parou, como se tivesse tomado uma decisão. - Mas posso deixar isso por conta do destino.
-O que quer dizer? - eu disse, sufocada.
-Não precisa fazer nada deliberadamente... Posso só fazer o melhor por meu grupo, e o que tiver que ser, será. - Ele deu de ombros. - Se você conseguisse me convencer de que quer mesmo que eu volte... Mais do que quer fazer o que acha certo.
-Como? - perguntei.
-Pode me pedir - sugeriu ele.
-Volte - sussurrei. Como ele podia duvidar da minha sinceridade?
Ele sacudiu a cabeça, sorrindo de novo.
-Não era disso que eu estava falando.
Precisei de um segundo para entender o que ele dizia, e nesse tempo ele olhava para mim com aquela expressão superior – seguro de minha reação. Assim que percebi, soltei as palavras sem parar para pensar no custo.
-Pode me beijar, Jacob?
Seus olhos se arregalaram, depois se estreitaram, desconfiados.
-Está blefando.
-Beije-me Jacob. Beije-me e depois volte.
Ele hesitou na sombra, lutando consigo mesmo. Meio que se virou para o oeste, o torso afastando-se de mim enquanto os pés continuavam plantados no chão. Ainda olhando a distância, deu um passo inseguro em minha direção, depois outro. Girou o rosto para olhar para mim, os olhos em dúvida.
Eu o fitei também. Não fazia idéia da minha expressão.
Jacob se balançou nos calcanhares, depois se lançou para a frente, diminuindo a distância entre nós em três longas passadas.
Eu sabia que ele tiraria proveito da situação. Eu esperava por isso. Fiquei completamente imóvel – os olhos fechados, os dedos enrolados nos punhos ao lado do corpo – enquanto as mãos dele pegavam meu rosto e seus lábios encontravam os meus com uma ansiedade que não distava muito da violência.
Pude sentir sua raiva enquanto sua boca descobria minha resistência passiva. Uma das mãos passou para minha nuca, girando em punho em torno das raízes de meu cabelo. A outra mão agarrou rudemente meu ombro, sacudindo-me e depois me arrastando para ele. Sua mão continuava em meu braço, encontrando meu pulso e puxando o braço para cima, colocando-o em seu pescoço. Deixei-a ali, a mão ainda numa bola estreita, sem saber até que ponto eu podia ir em meu desespero para mantê-lo vivo. Em todo esse tempo, seus lábios, desconcertantemente macios e quentes, tentaram forçar uma resposta dos meus.
Assim que teve certeza que eu não largaria o braço, ele libertou meu pulso, a mão sentindo caminho para minha cintura. Sua mão ardente encontrou a pele da base das minhas costas e ele me puxou para a frente, curvando meu corpo contra o dele.
Seus lábios desistiram dos meus por um momento, mas eu sabia que ele não estava perto de terminar. A boca seguiu a linha de meu queixo, depois explorou meu pescoço. Ele soltou meu cabelo, estendendo o outro braço para colocá-lo em seu pescoço, como o primeiro.
Depois os dois braços de Jacob estavam fechados em minha cintura e seus lábios encontaram minha orelha.
-Pode fazer melhor do que isso, Bella - sussurrou ele com a voz rouca - Está pensando demais.
Eu tremi ao sentir seus dentes roçarem meu lóbulo da orelha.
-É isso mesmo - murmurou ele - Pela primeira vez, deixe fluir o que você sente.
Sacudi a cabeça mecanicamente até que as mãos de Jacob estava de volta ao meu cabelo e me deteve.
A voz dele ficou acida.
-Tem certeza de que quer que eu volte? Ou realmente quer me ver morto?
A raiva tremeu em mim como um chicote depois de um golpe forte. Aquilo era demais – ele não estava sendo justo.
Meus braços já estavam em seu pescoço, então agarrei seus cabelos – ignorando a pontada de dor na mão direita – e puxei, lutando para afastar meu rosto do dele.
E Jacob entendeu mal.
Ele era forte demais para reconhecer que minhas mãos, tentando arrancar seu cabelo pelas raízes, queriam lhe provocar dor. Em vez de raiva, ele imaginou paixão. Pensou que eu estava, afinal, reagindo a ele.
Com um ofegar intenso, ele voltou a colocar a boca na minha, os dedos se agarrando freneticamente à pele de minha cintura.
O choque da raiva desequilibrou meu tênue autocontrole; a reação inesperada de êxtase por parte dele venceu. Se houvesse só triunfo, eu seria capaz de resistir. Mas a completa entrega de sua súbita alegria abalou minha determinação, inutilizando-a. Meu cérebro desconectou-se do meu corpo e eu estava retribuindo seu beijo. Contra toda a razão, meus lábios se moviam com os dele de formas estranhas e perturbadoras, como nunca se moveram antes – por que eu não precisava ter cuidado com Jacob e ele certamente não estava sendo cuidadoso comigo.
Meus dedos agarraram seu cabelo, mas eu agora o puxava para mais perto.
Ele estava em toda parte. O sol penetrante tornou minhas pálpebras vermelhas e a cor combinava com o calor. O calor estava em toda parte, eu não conseguia ver nem sentir nada que não fosse Jacob.
A pequena parte do meu cérebro que manteve sanidade gritava perguntas para mim. Por que eu não estava impedindo aquilo? Pior ainda, por que eu não conseguia encontrar o desejo de parar? Significava que eu não queria que ele parasse? Que minhas mãos se agarraram aos ombros dele e gostaram que fossem largos e fortes? Que as mãos dele me puxassem apertado demais em seu corpo, e no entanto, não fosse apertado o bastante para mim?
As perguntas eram idiotas, porque eu sabia a resposta: eu estava mentindo para mim mesma. Jacob tinha razão. Teve razão o tempo todo. Ele era mais do que apenas meu amigo. Por isso era tão impossível me despedir dele porque eu estava apaixonada por ele. Também. Eu o amava, muito mais do que devia, e no entanto ainda não era o bastante. Eu estava apaixonada por ele, mas não era suficiente para mudar nada; era só o bastante para magoar nos dois. Para magoá-lo ainda mais do que eu fizera.
Eu não podia me importar mais do que... do que com sua dor. Eu merecia mesmo qualquer dor que ele me provocasse. Tive esperanças de que fosse ruim. Esperava o fato de sofrer.
Nesse momento, senti como se fôssemos a mesma pessoa. A dor dele sempre foi e seria a minha dor – agora a alegria dele era a minha alegria. E sempre me senti alegre, e ainda assim a felicidade dele, de certo modo, também era dor. Quase tangível – ardia contra minha pele como ácido, uma tortura lenta. Por um breve e interminável segundo um caminho inteiramente diferente se expandiu por trás das pálpebras de meus olhos lacrimosos. Como se eu estivesse olhando pelo filtro dos pensamentos de Jacob, pude ver exatamente do que eu poderia abrir mão, exatamente o que quer esse novo autoconhecimento não me pouparia de perder. Eu podia ver Charlie e Renée misturados numa estranha colagem com Billy e Sam em La Push. Podia ver os anos passando, e significando alguma coisa enquanto passavam, mudando-me. Eu podia ver o enorme lobo marrom-avermelhado que eu amava, sempre presente, tão protetor como se eu precisasse dele. Pelo menor fragmento desse segundo, vi as cabeças de duas crianças pequenas de cabelos pretos, correndo de mim na floresta familiar. Quando desapareceram, levaram o que restara da visão.
Então, com clareza, senti a fissura em meu coração se estilhaçar como a menor parte que se separava do todo.
Os lábios de Jacob ainda estavam nos meus. Abri os olhos e ele me fitava, admirado e exaltado.
-Tenho que ir - sussurrou ele.
-Não - Ele sorriu, satisfeito com a minha resposta.
-Não vou demorar - prometeu ele. -Mas primeiro uma coisa...
Ele me beijou de novo, e não havia mais motivos para resistir. Que sentido teria?
Dessa vez foi diferente. As mãos dele eram suaves em meu rosto, e seus lábios quentes eram gentis, inesperadamente hesitantes. Foi breve e muito, muito doce.
Seus braços se enroscaram à minha volta e ele me abraçou seguramente ao sussurrar em meu ouvido.
-Este devia ter sido nosso primeiro beijo. Antes tarde do que nunca.
Enterrei o rosto no peito dele, onde ele não podia ver as lágrimas que se acumulavam e caíam.